Atualizado em 24/09/2026. Texto informativo, escrito com base nas fontes listadas ao final.
Vulvodínia é a dor na vulva que dura pelo menos três meses sem uma causa clara identificável, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Estudos dos Estados Unidos estimam que de 4% a 16% das mulheres tenham os sintomas, e no Brasil ainda não há dados, conforme revisão publicada na revista Femina, da Febrasgo. A dor é real e tem tratamento, feito em equipe.
O que é vulvodínia?
Vulvodínia é uma dor crônica na vulva, a parte externa do órgão genital feminino, sem infecção, inflamação, tumor ou lesão de nervo que a explique. Segundo a Febrasgo, a dor pode ser intensa mesmo sem nenhum achado visível no exame.
O Ministério da Saúde, no protocolo de dor crônica do SUS, define dor crônica como aquela que passa de três meses. O mesmo documento explica a alodinia: dor causada por um estímulo que normalmente não dói. É o que muitas mulheres com vulvodínia sentem com um toque leve.
Quais são os tipos de vulvodínia?
A vulvodínia é classificada pelo local da dor e pelo que a desencadeia. A Febrasgo usa a classificação internacional de 2015, resumida na tabela abaixo.
| Tipo | Onde dói | Como a dor aparece |
|---|---|---|
| Localizada (por exemplo, vestibulodínia) | Numa área específica, como o vestíbulo, a região em volta da entrada da vagina, ou o clitóris | Em geral provocada por toque ou pressão |
| Generalizada | Em toda a vulva | Muitas vezes espontânea, sem nada que a provoque |
| Mista | Combina as duas formas | Provocada e espontânea |
A dor pode ser primária, presente desde o início, ou secundária, quando surge após um período sem dor. Na vestibulodínia provocada, ela pode começar no primeiro uso de absorvente interno ou no primeiro exame com espéculo, explica o Manual MSD.
Quais são os sintomas?
O sintoma principal é dor na vulva, em queimação, ardência ou pontadas. A intensidade e o ritmo variam, e a dor costuma aparecer em situações como:
- relação sexual com penetração, que é o gatilho mais comum;
- colocar ou retirar absorvente interno;
- exame ginecológico com espéculo;
- andar de bicicleta ou usar roupas apertadas;
- o próprio toque na região genital.
A lista reúne a revisão da Femina e o Manual MSD. Algumas mulheres também relatam piora ao ficar sentadas por muito tempo, outra forma de pressão sobre a vulva. Na vulvodínia generalizada, a queimação pode existir o tempo todo, mesmo sem toque.
Um detalhe importante: a vulva costuma parecer normal. Segundo a Febrasgo, o exame com lente de aumento (vulvoscopia) não mostra alterações na maior parte dos casos.
Quais são as causas e os fatores de risco?
A causa exata da vulvodínia não é conhecida. A Febrasgo cita fatores que aparecem associados a ela e que muitas vezes se somam:
- outras dores crônicas, como fibromialgia, síndrome da bexiga dolorosa, intestino irritável e dor na articulação da mandíbula;
- predisposição genética;
- uso de anticoncepcional hormonal combinado, associado a maior risco (não suspenda o método sem orientação médica);
- músculos do assoalho pélvico muito contraídos;
- mais terminações nervosas no vestíbulo e maior sensibilidade à dor no sistema nervoso;
- inflamação local;
- ansiedade, depressão, violência sofrida na infância e estresse pós-traumático.
O Manual MSD acrescenta a queda de estrogênio, como na menopausa. Ter um desses fatores não significa ter vulvodínia.
Qual é a diferença entre vulvodínia, vaginismo, infecções e dermatoses?
Infecções e doenças de pele da vulva têm causa identificável e tratamento próprio. A vulvodínia só é diagnosticada depois que essas causas são descartadas.
| Condição | O que costuma caracterizar |
|---|---|
| Vulvodínia | Dor ou queimação na vulva por três meses ou mais, com pele de aparência normal |
| Vaginismo | Dificuldade de penetração, com dor, medo e contração involuntária dos músculos da pelve |
| Candidíase | Coceira e corrimento branco, espesso, parecido com leite coalhado |
| Vaginose bacteriana e tricomoníase | Corrimento ralo ou espumoso, com odor forte |
| Herpes genital | Feridas ou bolhas dolorosas que aparecem em crises |
| Líquen escleroso | Coceira intensa, manchas brancas, pele fina e rachaduras |
| Atrofia vaginal (menopausa) | Secura, pouca lubrificação e dor na relação por falta de estrogênio |
A tabela se baseia em textos da Febrasgo sobre dor genital, o Manual MSD sobre coceira e corrimento e o texto sobre líquen escleroso. O líquen escleroso precisa de acompanhamento porque, em casos raros e de longa duração, pode evoluir para câncer de pele na região.
Vulvodínia e vaginismo podem aparecer juntos. Segundo o Manual MSD, na dor da entrada da vagina a contração involuntária dos músculos costuma fazer parte do problema.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é de exclusão: o médico confirma a vulvodínia quando não encontra outra causa para a dor. A Febrasgo descreve uma conversa detalhada, o exame ginecológico e exames para afastar infecções e outras doenças.
Uma etapa comum é o teste do cotonete. Com um cotonete umedecido, o profissional toca de leve vários pontos da vulva, de fora para dentro, até o vestíbulo. A mulher diz onde dói e quanto. Segundo o Manual MSD para profissionais, dor localizada a um toque leve no vestíbulo é característica da vulvodínia.
A biópsia não costuma ajudar na vulvodínia, mas pode ser pedida se houver suspeita de dermatose. Anotar onde dói, quando começou e o que piora ajuda na consulta.
O caminho até o diagnóstico pode ser longo. A Febrasgo afirma que muitas mulheres esperam anos, principalmente por desconhecimento da doença entre ginecologistas. Se a dor for minimizada, vale buscar outra opinião.
Qual é o tratamento?
O tratamento é multidisciplinar e escolhido para cada caso, segundo a Febrasgo. A equipe pode reunir ginecologista, fisioterapeuta, psicólogo, psiquiatra e terapeuta sexual. Em geral, várias abordagens são combinadas.
Cuidados com a vulva
A Febrasgo orienta afastar produtos irritantes, usar produtos neutros e calcinhas brancas de algodão, e preferir lubrificantes à base de água aos de silicone ou oleosos. Sabonetes, duchas e sprays íntimos podem irritar a região, lembra o Manual MSD.
Fisioterapia pélvica
A fisioterapia do assoalho pélvico ensina a mulher a relaxar os músculos da pelve, às vezes com biofeedback, um aparelho que mostra a contração em tempo real. Na dor da entrada da vagina, o Manual MSD considera a fisioterapia fundamental. A eletroestimulação pela pele (TENS) é opção barata e não invasiva, mas ainda precisa de mais estudos, aponta a revisão da Femina.
Medicamentos, sempre com orientação médica
- Anestésico tópico em gel: aplicado antes da relação sexual, pode reduzir a dor.
- Medicamentos para dor neuropática: antidepressivos tricíclicos e anticonvulsivantes, em comprimido ou em creme aplicado no local. Agem sobre a dor, não só sobre o humor.
- Estrogênio tópico: em alguns casos, sobretudo quando há falta desse hormônio.
- Toxina botulínica: citada pela Febrasgo entre as opções possíveis.
O protocolo de dor crônica do Ministério da Saúde lista essas classes para a dor neuropática em geral, sem tratar da vulvodínia em particular. A escolha e a dose são sempre decisão médica.
Psicoterapia e terapia sexual
A terapia cognitivo-comportamental e a terapia baseada em atenção plena podem ajudar algumas mulheres a controlar o medo e a ansiedade ligados à dor, segundo o Manual MSD. A revisão da Femina inclui a terapia de casal na abordagem.
Cirurgia em casos selecionados
A vestibulectomia retira o tecido ao redor da entrada da vagina. Segundo a Febrasgo, é reservada a quem não melhorou com os outros tratamentos e não é indicada na dor generalizada e espontânea. É raramente realizada, diz o Manual MSD.
Como a vulvodínia afeta as emoções e a relação?
A dor genital crônica vai além do corpo. Um texto da Febrasgo de 2025 cita vergonha, autoestima baixa, ansiedade e depressão. Também descreve conflitos no casal, afastamento, medo da intimidade, evitação do sexo e queda do desejo.
Muitas mulheres se sentem “quebradas” ou “inadequadas”, relata a especialista ouvida pela Febrasgo. Conversar com a parceria, levá-la às consultas e buscar intimidade sem penetração pode aliviar a pressão.
Quando procurar atendimento?
Procure atendimento sempre que a dor na vulva se repetir ou atrapalhar o sexo, o uso de absorvente ou a rotina. Não é preciso esperar três meses: esse prazo serve para o diagnóstico, não para a consulta. No SUS, o caminho começa na Unidade Básica de Saúde (UBS), que encaminha ao especialista quando necessário, como prevê o protocolo do Ministério da Saúde.
| Situação | O que fazer |
|---|---|
| Dor, ardência ou queimação que voltam ou persistem | Consulta na UBS ou com ginecologista |
| Coceira intensa, manchas brancas, feridas ou bolhas | Consulta em poucos dias para investigar infecção ou dermatose |
| Dor com febre, dor pélvica, corrimento com sangue (sobretudo após a menopausa) ou fezes no corrimento | Atendimento em até 24 horas, como orienta o Manual MSD; se piorar rápido, UPA |
| Dor muito forte e súbita, com mal-estar geral | Pronto atendimento ou SAMU 192 |
Perguntas frequentes
Vulvodínia tem cura?
Não existe um tratamento único que funcione para todas as mulheres. Por isso a Febrasgo recomenda escolher o tratamento caso a caso, combinando cuidados locais, fisioterapia, medicamentos e apoio psicológico. O objetivo é reduzir a dor e devolver a qualidade de vida. A resposta varia de pessoa para pessoa.
A vulvodínia é psicológica?
Não. A dor é real e pode envolver nervos mais sensíveis, inflamação e músculos contraídos, segundo a Febrasgo. Ansiedade, depressão e traumas aparecem como fatores de risco, e a dor constante também afeta as emoções. A psicoterapia entra no tratamento para cuidar desse ciclo, não porque a dor seja inventada.
Vulvodínia é uma infecção sexualmente transmissível?
Não. Por definição, a vulvodínia só é diagnosticada depois que infecções, como candidíase e herpes, foram descartadas. Se houver corrimento, feridas ou bolhas, a causa pode ser outra, e o exame ginecológico ajuda a esclarecer.
Posso ter relações sexuais com vulvodínia?
A relação não deve ser suportada com dor. Durante o tratamento, lubrificante à base de água e, com orientação médica, anestésico tópico podem ajudar. A intimidade também pode acontecer sem penetração. Conversar com a parceria e com a equipe de saúde ajuda a definir o ritmo de cada etapa.
Fontes
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Vulvodínea: atualidades (19/02/2019). Acesso em 24/09/2026.
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Dor na genitália e na relação sexual (12/07/2017). Acesso em 24/09/2026.
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Cerca de 23% das brasileiras sentem dor durante a relação sexual (12/06/2025). Acesso em 24/09/2026.
- Revista Femina (Febrasgo). Estimulação nervosa elétrica transcutânea (TENS) no tratamento da vulvodínia localizada provocada: revisão sistemática. Femina 2019;47(5):302-306. Acesso em 24/09/2026.
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica (22/08/2024). Acesso em 24/09/2026.
- Manual MSD Versão Saúde para a Família. Transtorno da dor gênito-pélvica/penetração. Acesso em 24/09/2026.
- Manual MSD Versão Saúde para a Família. Prurido vaginal ou secreção vaginal. Acesso em 24/09/2026.
- Manual MSD Versão Saúde para a Família. Líquen escleroso. Acesso em 24/09/2026.
- Manual MSD Versão para Profissionais de Saúde. Exame pélvico. Acesso em 24/09/2026.




















