Atualizado em 24/09/2026. Texto informativo, escrito com base nas fontes listadas ao final.
A microbiota vaginal é o conjunto de micro-organismos que vive normalmente na vagina. Em equilíbrio, predominam os lactobacilos, bactérias que mantêm o ambiente ácido e dificultam o crescimento de micro-organismos que causam infecção, segundo o Manual MSD. Quando esse equilíbrio se perde, surgem problemas comuns e tratáveis, como a vaginose bacteriana e a candidíase, que pedem diagnóstico antes de qualquer remédio.
O que é a microbiota vaginal e por que o pH ácido importa?
Entre as bactérias da vagina, os lactobacilos são os principais. Eles mantêm a vagina ácida, protegem o revestimento e impedem o crescimento de bactérias que causam infecção. Quando a acidez diminui, ou seja, quando o pH sobe, os lactobacilos caem e as bactérias que causam inflamação aumentam, segundo o Manual MSD.
O Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis, do Ministério da Saúde, usa esse sinal no diagnóstico: na vaginose bacteriana, o pH fica acima de 4,5; na tricomoníase, quase sempre acima de 5,0. Segundo o mesmo protocolo, 10% a 20% das mulheres em idade reprodutiva têm o fungo Candida na vagina sem sintomas e sem precisar de tratamento.
Qual é o corrimento normal?
Ter secreção vaginal é normal na idade fértil. Ela é transparente, esbranquiçada ou amarelo-pálida e aparece em pequena quantidade, todos os dias ou de vez em quando. Aumenta perto da ovulação, muda com a pílula e com a excitação sexual e costuma diminuir depois da menopausa. Segundo o Manual MSD, o corrimento merece avaliação quando está:
- mais abundante ou mais espesso que o habitual;
- branco e em grumos, como leite coalhado;
- acinzentado, esverdeado, amarelado ou com sangue;
- acompanhado de coceira, ardência, vermelhidão, dor ou cheiro forte.
O corrimento motiva cerca de 30% das consultas ginecológicas, mas nem todo fluxo indica doença, e nem toda doença é infecção, lembra o Ministério da Saúde.
Vaginose bacteriana, candidíase e tricomoníase: qual é a diferença?
As três são as causas mais comuns de corrimento anormal: a candidíase é causada por fungo, a vaginose bacteriana por bactérias como a Gardnerella vaginalis, e a tricomoníase por um protozoário, segundo o Ministério da Saúde. Pode haver mais de uma ao mesmo tempo.
| Característica | Vaginose bacteriana | Candidíase | Tricomoníase |
|---|---|---|---|
| O que é | Desequilíbrio: menos lactobacilos e excesso de outras bactérias | Crescimento de um fungo que já vive no corpo | Infecção pelo protozoário Trichomonas vaginalis |
| Corrimento típico | Acinzentado, fluido, com cheiro de peixe, pior após a relação e na menstruação | Branco, em grumos, como leite coalhado, sem cheiro | Abundante, amarelo-esverdeado, com bolhas ou espuma e cheiro forte |
| Outros sintomas | Coceira e inchaço são incomuns | Coceira intensa, ardência ao urinar, vermelhidão e inchaço da vulva | Coceira, ardência, vermelhidão, dor na relação e ao urinar |
| É infecção sexualmente transmissível? | Não | Não | Sim |
| A parceria precisa de tratamento? | Só se tiver sintomas | Só se tiver sintomas | Sim, ao mesmo tempo |
| Classe de tratamento | Antibiótico, oral ou vaginal | Antifúngico, vaginal ou oral | Antimicrobiano por via oral |
A vaginose bacteriana aumenta o risco de outras infecções sexualmente transmissíveis, incluindo o HIV. Na gravidez, a vaginose e a tricomoníase sem tratamento estão ligadas ao rompimento precoce da bolsa. Cerca de 30% dos casos de tricomoníase não dão sintomas, segundo o Ministério da Saúde.
A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a FEBRASGO, considera candidíase de repetição quatro ou mais episódios em 12 meses; na vaginose, a referência costuma ser três ou mais episódios por ano, segundo a FEBRASGO.
O que desequilibra a microbiota vaginal?
Tudo o que reduz a acidez ou elimina os lactobacilos abre espaço para bactérias e fungos:
- Ducha vaginal: remove as bactérias protetoras e reduz a acidez, o que aumenta o risco de infecção, segundo o Manual MSD.
- Sabonetes perfumados e produtos íntimos: talcos, perfumes e desodorantes íntimos estão entre os fatores ligados à candidíase, segundo o Ministério da Saúde.
- Antibióticos: eliminam também as bactérias normais da vagina e aumentam o risco de candidíase, segundo o Manual MSD.
- Fases hormonais: os dias antes e durante a menstruação e a gravidez reduzem a acidez vaginal, segundo o Manual MSD.
- Menopausa: com menos estrogênio, a parede da vagina fica mais fina, seca e menos ácida, o que facilita irritações e algumas infecções. Veja o guia sobre atrofia vaginal.
- Sexo sem preservativo: o sêmen tem pH mais alto e pode desencadear a vaginose em mulheres predispostas; a tricomoníase é transmitida em relações desprotegidas, segundo o Ministério da Saúde.
- Calor, umidade e saúde geral: roupas molhadas, diabetes descompensado, corticoides e imunidade baixa favorecem a candidíase.
Como fazer a higiene íntima sem prejudicar a microbiota?
A higiene íntima é externa e sem perfume. O Manual MSD recomenda lavar a região genital com sabonete suave e sem fragrância, enxaguar, secar bem e não fazer ducha vaginal. Também ajudam:
- limpar da frente para trás depois de urinar ou evacuar;
- preferir calcinha de algodão e papel higiênico sem perfume e dispensar o absorvente diário, como orienta a FEBRASGO;
- usar roupas folgadas e trocar logo absorventes e roupas molhadas, segundo o Manual MSD;
- usar preservativo, que ajuda a prevenir a tricomoníase, embora não dê proteção total, segundo o Manual MSD.
Como é feito o diagnóstico e qual é o tratamento?
O diagnóstico é feito com exame ginecológico e análise do corrimento ao microscópio. Como os sintomas se parecem, é arriscado fechar o diagnóstico só por eles, alerta a FEBRASGO. A ardência ao urinar, por exemplo, pode ser candidíase ou infecção urinária, como a cistite pós-coito.
O tratamento depende da causa e é sempre indicado por profissional de saúde:
- Vaginose bacteriana: antibiótico, oral ou em gel ou creme vaginal. Melhora em poucos dias, mas volta com frequência, segundo o Manual MSD.
- Candidíase: antifúngico vaginal ou oral. Na gravidez e na amamentação, o Ministério da Saúde orienta tratar só por via vaginal, no Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis.
- Tricomoníase: antimicrobiano oral, com tratamento da parceria ao mesmo tempo, segundo o Manual MSD.
Não use antibiótico nem antifúngico por conta própria: se a causa for outra, o remédio não resolve e atrasa o tratamento certo. Nos casos de repetição, o médico investiga diabetes, imunidade baixa e uso de corticoides e pode indicar tratamento de manutenção por período prolongado.
Probióticos e receitas caseiras funcionam?
A evidência a favor dos probióticos ainda é limitada, e as receitas caseiras não têm respaldo científico.
Probióticos são micro-organismos vivos, como lactobacilos, usados para tentar recompor a microbiota. Uma revisão da Colaboração Cochrane (em inglês) de 2017 reuniu 10 estudos com 1.656 mulheres com candidíase. Junto com o antifúngico, os probióticos pareceram ajudar no curto prazo, mas as provas eram de baixa qualidade e insuficientes para recomendá-los. Na vaginose persistente, estratégias para restaurar a microbiota ainda têm lacunas de evidência, segundo a FEBRASGO.
Vinagre, iogurte e alho. Não existe estudo científico que mostre que vinagre e alho tratam a candidíase, afirmou ao g1 uma ginecologista da FEBRASGO, que orienta manter qualquer alimento, como o iogurte, longe da vagina. Outra especialista ouvida na reportagem do g1 lembra que o vinagre pode piorar a irritação.
Quando procurar atendimento?
Procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou o seu ginecologista se o corrimento mudar de cor, cheiro ou quantidade, vier com coceira, ardência ou dor na relação, ou durar mais que alguns dias, segundo o Manual MSD. Alguns sinais pedem mais pressa:
| Situação | O que fazer |
|---|---|
| Corrimento diferente do habitual, sem outros sinais | Consulta na UBS ou com ginecologista nos próximos dias |
| Gravidez com corrimento diferente do habitual | Avisar logo a equipe do pré-natal |
| Febre, dor pélvica (no pé da barriga), corrimento com sangue após a menopausa ou fezes no corrimento | Consulta médica em até 24 horas |
| Febre alta com dor forte na barriga, mal-estar intenso ou desmaio | Pronto-socorro ou UPA; em emergência, SAMU 192 |
| Parceria com infecção sexualmente transmissível ou relação sem preservativo | Serviço de saúde para testagem e orientação |
Perguntas frequentes
Ter corrimento todos os dias é normal?
Na maioria das vezes, sim. Segundo o Manual MSD, na idade fértil, é normal ter secreção transparente, esbranquiçada ou amarelo-pálida, em pequena quantidade, todos os dias ou de vez em quando. Ela muda ao longo do ciclo e com a pílula. O sinal de alerta é a mudança: cor diferente, grumos, cheiro forte, coceira ou ardência. Nesses casos, procure avaliação.
Vaginose bacteriana é infecção sexualmente transmissível?
Não. A vaginose bacteriana é um desequilíbrio da própria microbiota, com menos lactobacilos e mais bactérias como a Gardnerella. A relação sexual pode desencadeá-la em mulheres predispostas, porque o sêmen tem pH mais alto. Por isso, a parceria só precisa de tratamento se tiver sintomas. Já na tricomoníase, que é sexualmente transmissível, a parceria deve ser tratada, segundo o Ministério da Saúde.
Preciso usar sabonete íntimo?
O Manual MSD recomenda lavar só a parte externa com sabonete suave e sem fragrância. A FEBRASGO fala em sabonete líquido adequado a cada fase da vida. O que se deve evitar é a ducha vaginal e os produtos perfumados, como desodorantes íntimos, que irritam a região e podem favorecer infecções.
Probiótico previne candidíase ou vaginose?
Ainda não há provas suficientes para recomendar probióticos com esse objetivo. Uma revisão de estudos sobre candidíase encontrou só evidência de baixa qualidade de benefício no curto prazo, com o probiótico usado junto com o antifúngico, segundo a Colaboração Cochrane (em inglês). Na vaginose persistente, a FEBRASGO aponta lacunas de evidência. Converse com o médico antes de usar.
Fontes
- Ministério da Saúde (gov.br/aids). Corrimentos (publicado em 25/04/2022, modificado em 25/01/2024). gov.br. Acesso em 24/09/2026.
- Ministério da Saúde, revista Epidemiologia e Serviços de Saúde. Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis 2020: infecções que causam corrimento vaginal (2021). scielo.iec.gov.br. Acesso em 24/09/2026.
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Candidíase e vaginose bacteriana de repetição desafiam diagnóstico e tratamento, alerta FEBRASGO (2026). febrasgo.org.br. Acesso em 24/09/2026.
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Mulheres podem aprender sobre saúde íntima quebrando tabus, orienta FEBRASGO. febrasgo.org.br. Acesso em 24/09/2026.
- Manual MSD Versão Saúde para a Família (em português). Considerações gerais sobre a vaginite (infecção ou inflamação vaginal). msdmanuals.com. Acesso em 24/09/2026.
- Manual MSD Versão Saúde para a Família (em português). Prurido vaginal ou secreção vaginal. msdmanuals.com. Acesso em 24/09/2026.
- Manual MSD Versão Saúde para a Família (em português). Vaginose bacteriana (VB). msdmanuals.com. Acesso em 24/09/2026.
- Manual MSD Versão Saúde para a Família (em português). Candidíase vaginal (infecção fúngica vaginal). msdmanuals.com. Acesso em 24/09/2026.
- Manual MSD Versão Saúde para a Família (em português). Vaginite por Trichomonas. msdmanuals.com. Acesso em 24/09/2026.
- g1. Vinagre e alho na vagina contra candidíase? Veja riscos de ‘receita’ sem eficácia e conheça o tratamento certo (12/12/2023). g1.globo.com. Acesso em 24/09/2026.
- Colaboração Cochrane. Probiotics for the treatment of vulvovaginal candidiasis in non-pregnant women (2017). cochrane.org (em inglês). Acesso em 24/09/2026.




















